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Divagações, Diatribes e outros Semelhantes

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Medo

A humanidade esqueceu-se o que é ter medo.

Os ladrões não têm medo da polícia, os filhos não têm medo dos pais, os cidadãos não têm medo da autoridade, os fracos não têm medo dos fortes, os mais novos não têm medo dos mais velhos, os alunos não têm medo dos professores e os políticos não têm medo do povo.

Não estou a falar de terror.

Não é ser caçado até à morte porque temos uma cor de pele ou uma religião diferentes da maioria.

Não é ter uma polícia secreta política que faz com que os pais tenham medo de ser denunciados pelos filhos, que não permita que se juntem mais que três pessoas, que proíba o raciocínio.

Estou a falar do simples medo, aquele que faz com que tiremos a mão de dentro da panela porque sabemos que água a ferver queima.
Aquele que faz com que não andemos na sala sem acender a luz porque sabemos que a mesa está ali, e caneladas doem.

Por muito que nos queiramos convencer que não, e que nos disfarcemos com sedas, algodões e cabedal italiano, no fundo no fundo somos todos animais.

E os animais conhecem o medo.

Sabem que o medo é que nos mantém vivos.

O esquilo sabe que a sombra no céu pode muito bem ser uma águia à procura de almoço.
O gato sabe que o cão é maior, mais pesado e mais forte.
A gazela sabe que o leão tem dentes, garras e muita fome.

E é por isso que eles sobrevivem. Porque agem de acordo com esse medo e protegem-se.

Se a gazela for apanhada, a culpa não é do estado nem dos pais nem dos professores nem da polícia nem da sociedade em geral.

É o medo que a move e é graças a esse medo que ela se mantém viva mais um dia.

Mas nós não. Nós ignoramos o nosso medo.

Chamamos-lhe sociedade. Chamamos-lhe segurança pública. Chamamos-lhe obrigação moral. Chamamos-lhe nobreza. Chamamos-lhe dever.
Que os que não conseguem DEVEM ser arrastados pelos que conseguem. Que os fracos DEVEM ser protegidos pelos fortes.

Mas não é isso que nós queremos dizer.

A realidade que esta hipocrisia esconde é que os malandros DEVEM ser servidos pelos trabalhadores. Que os inúteis DEVEM ser protegidos pelos úteis.

Uma corrente só é tão forte quanto o seu elo mais fraco e a corrente que é a humanidade nos dias de hoje não dava para tocar uma campainha de porta, quanto mais puxar um carro de bois ou ancorar um navio.

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