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Divagações, Diatribes e outros Semelhantes
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sábado, 19 de março de 2011

Cais da Silveira

Não sei se é impressão minha, se é embelezamento das minhas memórias de juventude, se é esta onda de depressão constante dos dias de hoje ou se é mesmo verdade, mas o cais da silveira parece-me velho.

Quando eu era puto ia muita vez a pé de casa à Silveira com a minha mãe e a minha irmã tomar banho durante a tarde.
Íamos depois do almoço e ficavamos por lá até o meu pai sair do trabalho por volta das 6 para virmos à boleia com ele pra casa.

Ao fim de semana íamos em família e ficávamos no cais de toalha estendida, sempre entre a casa de banho e a prancha. Lembro-me perfeitamente daquela poeirazinha que se levantava, das beatas de cigarro pelo chão, da sensação claustrofóbica de estar rodeado de desconhecidos, de querer falar e não conseguir, de buscar sempre em vão uma cara conhecida por entre as massas. Sim, eu já de puto era bastante depressivo.

Mas durante a semana, nos dias a pé, ficávamos sempre na zona baixa, ou como lhe chamávamos na altura, nos ferrinhos. Normalmente perto da casa dos barcos, se não fosse mesmo à frente, estendíamos as toalhas e era um tal recozer ao sol.
Na onda da claustrofobia e do desconforto geral, acabava a passar a tarde toda dentro de água.
A meio caminho da travessia andava por lá aos círculos a ensopar em vez de recozer.

Mas na altura, embora eu fosse meio cinzento, o mundo parecia bonito.

Hoje o cais parece-me estragado, velho.
Faltam pedras, a descida ao longo dos ferros já não é direita, está toda escavacada, o piso já não inspira confiança. As barreiras, que antes eram vermelhas e brancas ao estilo dos nadadores-salvadores, agora são em inox, um cinzento baço que entristece.
Para além do mais, estão sempre partidas, com falta de algumas barras e com pontas aguçadas no seu lugar.

Não sei se sou só eu, mas os locais que marcaram a minha infância parecem ter envelhecido muito mais do que eu, em muito menos tempo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Takeshi Manuel

Recentemente repeguei no livro do Homem que Mordeu o Cão e ao passar pela notícia de que os japoneses inventaram um spray que detecta fluídos sexuais nas cuecas, lembrei-me desta conversa que se passou algures nos meus últimos anos de liceu.

Na altura eu ainda andava com a mania que queria ser psicólogo, portanto o pessoal incluía-me em conversas das mais absurdas que eu alguma vez ouvi, na esperança de obter algumas respostas para aqueles problemas que, na altura, pareciam ser o fim do céu e da terra.

Juntavam-se três ou quatro putos à minha volta, normalmente no tanque do liceu, e eles lá expunham os seus problemas, sem qualquer vergonha uns dos outros, ao que eu acabava sempre a ouvir feito estúpido e a aconselhar na melhor da minha capacidade.

Aparentemente um rapazinho, Bruno, ou Marco ou Manel, ou outro nome assim perfeitamente banal que eu já nem me lembro, andava com a mania que a namorada o andava a trair. Pelo que parece de repente ela, em certos dias, começou a insistir que ele não lhe fizesse sexo oral e essa foi a primeira desconfiança.
Note-se que na altura nem me passou pela cabeça por em causa que um monte de miúdos de 14/15/16 anos andassem aos minetes uns nos outros, o que por si só já é sinal que esta juventude está mesmo perdida.
Depois ele começou a reparar em manchas nas cuecas dela... e parece que numa aula de Biologia ou Ciências ou lá como é que se chamava na altura ele ouviu que as fêmeas humanas não têm capacidade de reter esperma no útero, pelo que é perfeitamente normal haver um certo escorrimento nas horas a seguir ao acto.

Esta eu tive mesmo que ir procurar, porque nunca tal tinha ouvido antes... Parece que afinal era mesmo verdade! Quem é que diz que não se aprende nada com os mais novos?

Junta-se mais uns pormenorzinhos assim, ele sismado que ela às vezes tinha um cheiro diferente, que quando saíam ela parecia que estava a querer esconder e mais outros que tais e estava basicamente a história contada.

E começam as opiniões, que normalmente é nesta parte que eu me pronuncio.

Uma rapariga dizia que o que ele deveria fazer era confrontá-la. E aqui digo eu... e se não for verdade?
O que é que ganhas com isso? Olha, eu sei que estamos juntos, mas não confio em ti e acho que me andas a trair? E depois como é que a coisa fica? Vai ela ficar a saber para sempre que não confias nela? E quando ela se vir numa situação que acaba mesmo por te pregar os cornos, só porque ela sabe que tu não acreditas na vossa relação?

Outro dizia que eles deviam segui-la... ver o que é que ela andava a fazer e com quem para depois correr a contar a ele. E até quando é que eles a conseguiriam seguir até ela topar que os amigos do namorado andavam atrás dela? E se não encontrassem nada? A dúvida não passava, a única coisa que ele ficava a saber é que ela não fazia nada com os amigos dele por perto... Não resolvia nada e era mais uma prova da desconfiança dele.

Mas para finalizar disse eu, se essa relação já vai nesse ponto, que não confias nela e estás convencido que ela te anda a trair, que vês perseguições e defeitos por todo o lado, não era melhor acabar e pronto? Não era melhor partir pra outra, qualquer coisa nova sem esse engano todo?
É que depois de começar a conspiração tudo encaixa! Da próxima vez que ela não atender o telemóvel é porque estava com outro, quando ela chegar atrasada é porque estava com outro, quando ela não quiser almoçar contigo é porque vai estar com outro, quando não quiser sair é porque está com outro, quando ela disser que está em casa doente é desculpa para poder estar com outro e por aí em diante e depois é só neuras e estás a estragar a tua paz por um outro que às tantas nem existe!

Presumo que na altura não tinha sido tão eloquente, mas a ideia exposta deve ter sido mais ou menos esta.

Como todos os namoros de adolescência, aquele durou pouco. Acabaram por ir cada um para o seu lado, acho que nem duas semanas depois, ele arranjou outra, que também não durou e dois ou três meses mais tarde lá estávamos nós em mais uma das nossas conversas...

Pelo que viemos a saber, ela não andava a traí-lo com outro... era com outra.

Eu espanto-me como é que me lembro destas merdas com tal pormenor só de olhar para um livro, mas não me consigo lembrar o que é que comi ontem ao pequeno almoço!

terça-feira, 2 de março de 2010

Simão

Quem me conhecia naquela altura vai perceber...Quando eu era puto tinha um amigo.
Conhecidos eram vários, mas acho que amigo amigo era só mesmo um.
A mãe dele trabalhava com a minha madrinha e ele vivia umas casa mais acima de mim, portanto foi um conhecimento fácil.

O que a minha mente não percebia era que esse meu amigo tinha outros amigos.

Certo dia estava eu em casa dele, como era habitual, e chegou outro amigo, o Simão.
O Simão era alguém que ele conhecia da escola, filho de não sei quem que tinha uma loja de brinquedos, mas isso agora não interessa nada.

Lembro-me que esse meu amigo pediu ao pai dele para me dizer para ir pra casa...
Senti-me traído e abandonado e como puto que era, fiz birra.

O pai disse-lhe que ele é que era meu amigo e que ele é que me tinha convidado, portanto se ele não me queria ali, era ele que tinha que me mandar embora.
Eles provavelmente por serem putos também não me disseram nada e limitaram-se a ignorar-me... senti-me tão mal que fui-me embora e ainda levei uns dias sem aparecer outra vez.

É claro que, puto que era, tudo se esqueceu depressa e não foi muito tempo até voltar à rotina de tardes em casa dele ou na minha a brincar com GI Joes e soldadinhos e coisas assim.

Outro dia vi o Simão, cumprimentou-me como homem não-puto que é, e eu igual, na mesma posição.

Acho estranho que mesmo após tanto tempo, praticamente 20 anos, a única coisa que me veio à memória foi isto, o instinto que o Simão não é boa pessoa, que foi ele que me roubou o amigo... Racionalmente sei que a culpa não foi dele mas no fundo ainda senti aquela mordida de inveja.

Será que é por isto que eu faço a mesma coisa?

Eu não misturo amigos, não combino os colegas de trabalho com os colegas de escola, os vizinhos com a família... e embora não vá chamar o meu pai para pôr ninguém na rua, tomo o cuidado de não combinar coisas para os mesmos dias nem frequentar os mesmos sítios com pessoas diferentes.

Será que é deste episódio que vem esta compartimentação?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Em pé por uma noite

Imagem roubada da internet, não faço idéia quem são os putosOntem chegou-me um casalinho ao hotel, como qualquer outro casalinho que precisa de ir para um hotel, à procura de um quarto para umas horas.

Perguntei em que nome ficava o quarto quando ele olha pra ela e pergunta sem vergonha nenhuma "Como é que te chamas?"

Só depois de ela responder é que eu percebi quem era.

Quando eu era criança tinha por vizinhos uma família meio perturbada. Pai, mãe e cinco ou seis filhos. Os putos andavam nus no quintal, mas havia sempre dinheiro pra gasolina para o carro e a mota do pai. Nem para o vinho.

Os dois mais velhos eram mais ou menos da minha idade, a Tânia e o Henrique, já não ouço falar deles à que anos, mas sempre me pareceu que não fossem acabar em nada de bom.

Era a típica família de São Mateus, daqueles que olhas e dizes logo que este vai acabar preso, aquele vai pras obras, aquela vai acabar mãe solteira...

Lembro-me de uma vez que a rapariga a meio da tarde me foi bater à porta a pedir batatas porque eles não tinham nada para comer.

Lembro-me também que a minha mãe tinha abóboras plantadas no quintal... certo dia os putos comeram-nas, mesmo verdes, porque pensavam que eram melancias. Obviamente não eram os espécimes mais inteligentes da raça humana.

Já estão a adivinhar quem era a rapariga do casalinho que falei no princípio, certo?

Agora, quis a divina providência que as minhas funções me fizessem passar pela porta do quarto durante a noite.

Os gemidos ouviam-se do corredor.

Risca mais uma das coisas que eu não precisava de saber!
O som que uma amiga de infância faz quando está a levar a sua...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Abóboras

Não foram estas, mas fica o exemploEste é mesmo só pormenor, mas achei curioso.

Aqui há uns meses, estávamos em direcção já não sei de onde para ir fazer já nem sei o quê, quando reparei numa casinha que tinha abóboras a secar no terraço.

É daquelas coisas que se via muita vez quando eu era pequeno, isso e feijão a secar em lonas, espalhado no chão em frente a uma casa qualquer.

Hoje em dia, isso é praticamente impossível, estamos todos demasiado preocupados com higiene, doenças, leptospirose, gripe A, e seja lá mais o que for...

Quando eu era puto e estava a comer uma sandes se ela caísse no chão era um assopro e estava a marchar!

Hoje? Hoje se eu tossir pra cima vai direito pro lixo!

Não digo que os cuidados não sejam necessários, mas não será um bocadinho demais?

Tanta vacina, tanto desinfectante, as pessoas fogem das florestas como se só respirar fosse suficiente para apanhar uma doença exótica qualquer e refugiam-se nos seus prédios de cimento vidro e plástico...

É verdade que raramente adoecemos mas parece-me que vivemos menos assim.

Outro dia vi uma fotografia qualquer duma paisagem no Nepal e parecia-me tão "limpa" que pensei que era photoshop...

Estamo-nos a esquecer da realidade do mundo!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Violência Extra-Doméstica

Não é que eu seja uma rapariguinha, mas acho que encaixaLembro-me de pequeno ir para casa dos meus avós, os pais do meu pai, à laia de babysitting, durante tardes inteiras.

Lembro-me que eles discutiam muito, por tudo e por nada, mas principalmente por dinheiro.
Não tenho memória se alguma vez chegou a físico, mas havia berros e palavrões bastantes.

Acho que foi a primeira vez que ouvi alguém chamar filho da puta a alguém...

Ao longo da vida tenho ouvido várias histórias daquilo que eu dizia e fazia quando era puto... daquelas que as tias contam umas às outras sem perceberem que nos estão a envergonhar...

A mais contada sobre mim era que eu um dia desses, no Jardim, saltei para o palco e comecei a cantar "Bezerros Enfeitados" a altos berros. Não me lembro.

Conta-se também que eu chamava pela minha tia, que ainda vivia com os pais, quando era a hora dela ir trabalhar. Pelo que me dizem, supostamente incitado pelo meu avô, eu chamava-a de "Perna Bem Feita"... também não me lembro.

Ainda se ouve que quando a minha mãe chegava para me ir buscar, eu escondia-me debaixo do tapete da sala, que não me queria ir embora.
É mais uma para as não-lembranças.

A única memória que tenho bem límpida é das discussões.

Lembro-me de um dia me meter, de dizer para eles pararem de discutir porque eu estava ali.

Parecia um filme, eles calaram-se instantaneamente, a minha avó virou-se para mim e disse "Se não querias ouvir, tivesses ficado em casa", e recomeçaram como se nada fosse.

Foi do mais surreal que já me aconteceu.

Acho que é o perfeito exemplo a dar, que os problemas não são para se resolver, são para se evitar...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Namoros de Infância

Le-le-le-le-lés-bi-ca!As relações são coisas esquisitas.
Embora necessárias para o ser humano enquanto animal social, quase nunca dão certo, a julgar pelo aumento no grau de divórcios e crimes de paixão e outras coisas assim.
É verdade que algumas se baseiam só em dinheiro, ou habituação, ou outras razões menos nobres, mas a maioria baseia-se em amor, ou pelo menos em algo muito parecido.

Na sua maioria, quando falta aquilo que os juntou, acabam. Se for por amor, acabam muito mal.

O que só por si não diz nada, mas isto das memórias precisa sempre de uma explicaçãozinha antes.

Lembro-me da minha primeira não-namorada. Chamava-se Elisabete.

Na escola primária, um dia apareceu-me um rapaz no recreio, disse-me que a irmã dele queria falar comigo.

Fui ao encontro dela e estava lá o irmão, o primo e um amigo... e ela.

Senti-me intimidado com a situação, e com vontade de sair dali o mais depressa possível.
Por momentos, até pensei que ia levar porrada ou coisa assim...

Naquela altura, o jogo favorito dos meus colegas de escola era ir para o meio da mata, fazer fortalezas com pedra, e amandar pedras uns aos outros. Cabeças rachadas e braços partidos eram coisa normal naquela zona. Um ambiente muito saudável, como se pode perceber.

Mas enfim... estava eu cheio de miúfas, no meio daqueles grandalhões todos, quando a rapariga me pergunta se quero namorar com ela!

Não sei se foi dos nervos, do medo, da pressa de sair dali, ou se foi por pura estupidez, mas respondi... "Não!"

Não é que faça diferença, mas hoje em dia essa rapariga é lésbica.

Lá de vez em quando penso que se calhar tem alguma coisa a ver com essa experiência, mas é uma coisa que nunca saberei.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Diários

Esta imagem foi roubada não sei bem daiondeEstava uma colega a contar-me que encontrou o seu diário que já não via à três anos e lembrei-me desta. Não é bem de infância, mas considerando que eu ainda não era um adulto, também encaixa.

Acho que todos nós tivemos um diário quando éramos mais novos...
Um bocado como as malas para homens se chamarem pastas, os diários de homem normalmente chamam-se jornais ou memórias, mas no fundo é tudo o mesmo.

Andava eu no liceu nos primeiros anos, quando escrevi o meu último diário, e aquele que me deu mais chatices.
O meu diário era um ficheiro de word encriptado. Lembro-me perfeitamente que me esqueci da password do ficheiro, não é que fizesse muita diferença.

Na altura uma das minhas maiores amigas (a meu ver) era a Marta Raposo, não me lembro nem como nem porquê, mas nós conversávamos muito. Se calhar era porque eu era um daqueles eternos "just friends", portanto havia uma série de raparigas que confiava em mim, tanto que o meu apelido a certo ponto era "psicólogo"... mas enfim estou a divagar outra vez.

Não me lembro porquê, a certa altura mostrei-lhe uma página do meu diário. Era uma espécie de testamento físico... deixava a capacidade de raciocínio a este, a inteligência àquele, a altura a não sei quem e etc etc...

Tinha lido isto na internet algures e achei um piadão. Mostrei a uma pessoa ou duas que também se partiram a rir, e achei que devia fazer igual.

Só me lembro perfeitamente de uma linha. Deixava a gordura à Soraia... a rapariga era magríssima, ao ponto de (na minha opinião) meter impressão.

Não sei porquê, aliás, nunca soube porquê, a Marta chateou-se com a parte que tocava a ela... nem me lembro o que era.

Vingou-se, mostrou a tal página a toda a gente que era mencionada no testamento... nunca percebi, mas a verdade é que ninguém pareceu ligar nenhuma.

Quer dizer, ninguém excepto a Soraia.

Lembro-me que ela confrontou-me na Bar do Estudante, onde eu costumava almoçar naquela altura... eu expliquei-me mal e ela percebeu pior ainda e não deu em discussão porque não calhou.
Não fazia ideia que ela levava a "largura" dela tão a peito, mas era tanto que ela nem acreditou que a ideia não era originalmente minha. Aliás, nem me lembro ao certo se tive hipótese de dizer que não era minha... enfim, foi uma confusão!

Essa falta de julgamento da parte parte, em mostrar uma coisa privada (por muito absurda que vosse) a outra pessoa, custou-me uma amizade.

Aliás, custou-me um grupo de amigos, visto que nunca mais saí com o pessoal da Soraia. Tanto que hoje em dia há pelo menos uma pessoa que me vira a cara sempre que me vê.

A longo prazo não influencia nada, nem estou a tentar distribuir culpas, visto que a culpa foi inteiramente minha... se eu não tivesse escrito, ou não tivesse mostrado, a confusão tinha-se evitado.

Mas ainda rói.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Cromos

Eu lembro-me de coisas que às vezes não fazem sentido nenhum, mas não deixam de ter piada.

Lembro-me da primeira colecção de cromos que vi. Já tinha visto autocolantes, mas não tinha a noção de album, de caderneta.

Uma vizinha da minha avó tinha uma neta, alguns anos mais velha que eu. Hoje em dia não faz diferença nenhuma, mas naquela altura um ano parecia uma década.

Estava eu nos degraus de casa da minha avó, numa das minhas birras de não comer a sopa, quando passou uma rapariguinha loirinha, a dita neta da vizinha.

Para me convencer, a minha tia disse-me que se eu comesse a sopa a rapariga tinha uma coisa pra me mostrar.

Lá eu comi a sopa, curioso (a curiosidade sempre foi, e continua a ser, o meu maior problema).

Foi a primeira caderneta que vi. Não me lembro o assunto, não faço a mínima ideia... lembro que o fundo das páginas era verde e lembro que os cromos não eram autocolantes. Era preciso cola... lembro-me que ela tinha uma daquelas bisnagas com um esponjinha na ponta.

Por pormenores que fui recolhendo ao longo dos tempos, a dita rapariguinha é a irmã do Luis, do DePadua.
Não é que faça diferença nenhuma, mas é um pormenor interessante que ao fim de uns largos anos eu tenha conhecido alguém que estava ligada às minhas memórias de infância.

sábado, 8 de agosto de 2009

Dona Teresa

Era desta planta que vinham os espinhosLembro-me perfeitamente do dia em que percebi que os ditados populares, ou se calhar as frase feitas, dependendo do ponto de vista, eram somente coisas que se diziam.

Sempre tive a idéia que aqueles coisas que eu ouvia os mais velhos dizer, por exemplo "Em Abril, Águas Mil", eram regras fixas, inabaláveis. Eu pensava que eram previsões, premonições que iriam certamente acontecer. Que quando se via o Pico descoberto ia chover três dias depois. Não é que eu me lembrasse de verificar, era regra e pronto!

Até que chegou ao dia em que eu percebi que elas não eram mais que uma... opinião.

Quando eu era pequeno tinha duas amas. Duas irmãs qe viviam ali perto que tomavam conta de mim quando eu saia da escola antes da minha mãe voltar do trabalho.
Eram duas velhotas, a Dona Francelina e a Dona Teresa. Lembro-me das duas sentadas à janela a bordar. Tinham daqueles cactos no jardim e usavam as pontas afiadas para alargar os buracos do pano, para marcar os bordados. Eu ficava horas a olhar pra elas... não porque gostasse, mas porque não havia mais nada pra fazer.

A Dona Francelina ainda anda por lá. Vejo-a às vezes, ao Domingo de manhã a ir para a missa. Está curvada, da idade, mas ainda resiste.

A Dona Teresa morreu, já à uns anos valentes.

Foi no enterro dela que vi o João Henrique, o sobrinho, filho da Francelina, lavado em lágrimas. O homem quase que se derretia. Foi estranho para mim, nunca tinha visto um homem chorar.

Até aquela altura não tenho memória de ter ido a um enterro, de ter vivido aquele ritual. Sei que fui ao da minha bisavó, mas não me lembro desse.

Aprendi algumas coisas.

Aprendi que se atira terra pra cima do caixão, em sinal de respeito e de saudade. Aprendi que as pessoas não duram para sempre.

Aprendi que um homem também chora.

Alcunhas

Até cheira a nobreza à distânciaE para começar com as memórias, vamos começar à boa maneira portuguesa... com merda.

Na minha zona (presumo que seja assim em todas, mas só posso falar da minha) todos os putos tinham apelidos. Lembro-me de muito poucos, os anos passam e o que não interessa varre-se da memória, mas há dois ou três que ficam.

Havia os apelidos por traços físicos, como era o caso do Cenoura... como seria de esperar, o rapaz era ruivo. Morava umas portas abaixo de mim e lembro-me que quando era pequeno, queria ser ninja. Andava lá a fazer estrelas com folha de alumínio e outras coisas assim.

Havia apelidos por passatempos, como era o caso do meu.
Lembro-me do meu, tartaruga, porque naquela altura de escola primária fosse eu para onde fosse levava um boneco ou dois atrás de mim. Quase sempre Tartarugas Ninja. Podiam não saber o meu nome, mas sabiam que eu era o rapaz das tartarugas.

Havia também os apelidos de feitio...
Lembro-me de um puto escanzelado de São Mateus, não era bem da minha zona mas via-o todos os dias no autocarro para o ciclo, que era o taopaipai... por causa da personagem do DragonBall. Pelo que me diziam, o rapaz era todo frenético e dava porrada em toda a gente.


E depois havia aqueles mesmo obscuros, que só mesmo explicando.
Havia um miúdo, de nome Rodrigo, que era um dos poucos mais gordos que eu (não é pra insultar, é que era mesmo um traço definitório).
Nunca mais o vi, acho que ele é bombeiro ou coisa assim, pelo menos lembro-me de o ver com o fato-macaco azul característico dos voluntários.
Não é que faça diferença, é uma curiosidade.

A ele calhou-lhe o interessante apelido de Caga-Latas...

Parece que o rapaz tinha um amor por salsichas, o que lhe mexia com os intestinos. Considerando que as salsichas vem em latas, 1+1=2 e daí surgiu o nome pelo qual seria conhecido o infeliz, pelo menos nos seus primeiros dez anos de vida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Memórias da Minha Infância

Sei que vocês estão-se a cagar para as minhas histórias de puto, mas eu estou-me a cagar pro que vocês estão-se a cagar :p
Vou criar um Tag novo, Memórias da Minha Infância, para as parvoíces que me for lembrando... já tenho algumas no moleskine para aqui deixar, quando tiver tempo cá venho.

Sei que não tenho idade para dizer "no meu tempo não era assim"... mas porra! no meu tempo não era assim!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Columbine


Parece que foi ontem...

Estava na escola na altura... era um geek, um outcast... um totó... longe da malta fixe e dos acontecimentos do dia. Não ia a festas, não praticava desporto, não namorava raparigas perfeitas.
Jogava jogos de computador, ouvia música pesada, de berros e guitarradas.
Passava horas à mesa com outros como eu com dados esquisitos e fichas e mapas e outras coisas assim a jogar Dungeons & Dragons. Lembro-me que no Açor, no Corpo Santo, o dono chegou a perguntar se aquilo era algum ritual satânico...
Lia o Senhor dos Anéis e via Star Trek...
Fiquei completamente aterrorizado.

Dois rapazes, oprimidos, gozados, martirizados pela vida social do liceu americano passaram-se completamente e entraram no liceu de Columbine aos tiros... mataram 12 alunos, um professor, feriram outros 23 e suicidaram-se.
Senti empatia... como a mairia dos cromos daquela altura, cheguei a pensar muitas vezes em suicídio, mas saber que alguém o fez, e de uma forma tão violenta e tão explícita fez-me sentir uma espécie de orgulho mórbido e ao mesmo tempo um terror indescritível. Como é que chegámos a isto? Porque é que ninguém reparou? Porque é que que ninguém fez nada?

Senti que a minha "classe" ia ser ainda mais ostracisada. Previ, como quem diz, a caça às bruxas contra os jogos de vídeo, contra a música violenta. Sabia que o público, tanto o americano como o mundial ia querer um bode espiatório... Ninguém vê uma coisa destas sem sentir necessidade de um fim, de alguém para deitar as culpas, de garantia que isto foi um acontecimento bizarro e que alguma coisa se pode fazer para não voltar a acontecer.
Ninguém quer pensar na crueza do mundo que nos rodeia.

Próximo dia 20, faz 10 anos que isto aconteceu.

Porra.... parece que foi ontem.

Hoje, dez anos depois, novas provas já viram a luz do dia. Já se provou que Eric Harris e Dylan Klebold não eram geeks... não eram totós. Muito pelo contrário.
Eram opressores. Eram psicopatas. O primeiro achava-se Deus e o segundo só queria morrer, não lhe importava como... foi fácil um ser convencido pelo outro.

Um ano... um longo ano levaram eles a planear, a construir 102 bombas no total, de gás propano, como usamos nos nossos esquentadores e fogões. Um ano em que esperaram, pensaram e cozinharam o grande plano de matar milhares.

Mataram 13... queriam matar todos.
Alunos, professores, polícias, bombeiros, pais... tudo...

É demais... assusta... vai para além de toda a compreensão como dois rapazes, perfeitamente normais a nível físico, de famílias perfeitamente normais, com vidinhas perfeitamente normais, com potenciais perfeitamente normais... possam não se sabe bem de onde magicar esta bela ideia...

Compreende-se que seja difícil acreditar... se assim for, o próximo pode ser qualquer um.
Posso ser eu, pode ser o dono da venda ali ao fundo, ou o empregado da bomba de gasolina, ou o rapaz do café onde tomo o pequeno-almoço todos os dias... qualquer um...

Assusta...

Porra, parece que foi ontem...