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Divagações, Diatribes e outros Semelhantes

sábado, 8 de agosto de 2009

Dona Teresa

Era desta planta que vinham os espinhosLembro-me perfeitamente do dia em que percebi que os ditados populares, ou se calhar as frase feitas, dependendo do ponto de vista, eram somente coisas que se diziam.

Sempre tive a idéia que aqueles coisas que eu ouvia os mais velhos dizer, por exemplo "Em Abril, Águas Mil", eram regras fixas, inabaláveis. Eu pensava que eram previsões, premonições que iriam certamente acontecer. Que quando se via o Pico descoberto ia chover três dias depois. Não é que eu me lembrasse de verificar, era regra e pronto!

Até que chegou ao dia em que eu percebi que elas não eram mais que uma... opinião.

Quando eu era pequeno tinha duas amas. Duas irmãs qe viviam ali perto que tomavam conta de mim quando eu saia da escola antes da minha mãe voltar do trabalho.
Eram duas velhotas, a Dona Francelina e a Dona Teresa. Lembro-me das duas sentadas à janela a bordar. Tinham daqueles cactos no jardim e usavam as pontas afiadas para alargar os buracos do pano, para marcar os bordados. Eu ficava horas a olhar pra elas... não porque gostasse, mas porque não havia mais nada pra fazer.

A Dona Francelina ainda anda por lá. Vejo-a às vezes, ao Domingo de manhã a ir para a missa. Está curvada, da idade, mas ainda resiste.

A Dona Teresa morreu, já à uns anos valentes.

Foi no enterro dela que vi o João Henrique, o sobrinho, filho da Francelina, lavado em lágrimas. O homem quase que se derretia. Foi estranho para mim, nunca tinha visto um homem chorar.

Até aquela altura não tenho memória de ter ido a um enterro, de ter vivido aquele ritual. Sei que fui ao da minha bisavó, mas não me lembro desse.

Aprendi algumas coisas.

Aprendi que se atira terra pra cima do caixão, em sinal de respeito e de saudade. Aprendi que as pessoas não duram para sempre.

Aprendi que um homem também chora.

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