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Divagações, Diatribes e outros Semelhantes

sábado, 27 de junho de 2009

Saudade

Fez ontem, quinta-feira, uma semana que perdi a minha avó.
É um acontecimento doloroso, indescritível e sem comparação.

Estas situações fazem sobresair o melhor e o pior das pessoas, fazem-nos ver o que realmente somos e não o que gostaríamos de ser. Mostra-nos com quem podemos contar e quem nos vai falhar nos momentos de necessidade.

Embora me mantivesse a par do seu estado de saúde, já fazia 5 anos que não via a minha avó, era doloroso demais para mim. Vê-la era encarar a relidade, que a vida acaba, que não duramos para sempre.
Depois da morte do meu avô, ela tornou-se um fantasma, uma sombra daquilo que era antes, deixou de ser aquela micaelense forte, de garra para não ser mais que um bebé, que precisava de ajuda para as mais fáceis tarefas, comer, lavar e tudo mais.

Perante este grotesco quadro de existência fiz o que qualquer cobarde faria, abstraí-me.
Convenci-me que o que eu estava a fazer era a mante-la na minha mente como ela foi e não como ela é. Queria guardar aquela imagem forte, irreverente, constante.

Não quis encarar o sofrimento, a prova de que a solidão destrói, de que a tristeza mata.


Quando recebi a notícia fiquei de rastos, tão que a minha primeira reacção foi de exclamar "o quê?", o que levou o meu pai, o portador da notícia a repetir, mais dolorosamente, que a minha avó, a mãe dele, tinha morrido. Senti-me culpado, poderia ter-lhe poupado essa dor naquele momento.

Fiquei sem saber o que fazer. Acho que se não estivesse acompanhado (estava com um primo meu, do outro lado da família, na altura) tinha-me ido abaixo.

Avisei a Mónica e os responsáveis do trabalho dela dispensaram-na imediatamente. Parece que isto das religiosidades pregarem a compaixão não se fica só pelas rezas, é mesmo para cumprir.

Avisei o hotel... falei com a directora de recursos humanos pela primeira vez, embora ela já cá esteja há algum tempo. Assegurou-me que não havia problema e que pouco depois me ligava a informar a que horas teria que me apresentar ao serviço.

Ligou-me dez minutos depois, se calhar nem tanto. Fiquei de regressar no domingo à noite, o meu horário normal.

Fiquei contente por saber que no meio da confusão, pelo menos teria um gostinho de normalidade, que seria como regressar de folga, foram só dois dias em casa, nada de mais.


A noite foi complicada, como aliás todos os velórios o são. Muito se riu e muito se chorou. Memórias recordadas, falou-se de promessas, imagens, momentos, costumes e tudo mais que marcavam a minha avó pelo que ela era, pela pessoa que foi, aos olhos de cada um.

Houve alguns contratempos, membros ausentes, mas nada que não fosse de esperar, numa situação tão delicada. Houve também surpresa na presença constante de pessoas que nunca julguei que o fizessem, ou pela sua distância à minha avó, ou pela imagem que tinha delas.

Acabámos por concluír a realidade, que foi melhor assim, que ela já só sofria, que pelo menos assim teria descanso.

Passou tudo como que envolto em névoa, rápido como se as horas se condensassem em poucos momentos.

Por volta das 5 , sentado nos degraus da funerária, acabei por adormecer. Fui pro carro, dormi no assento e acordei nem uma hora depois. Cheio de câimbras, como que por castigo. Devia ter ficado acordado, devia ter-me mantido de pé, como os outros.

Começaram a chegar as pessoas para o funeral. Recomeçaram as lágrimas, reabriram-se as feridas com a chegada dos que, com a intenção de prestar os seus últimos sentimentos, acabavam por relembrar o que a tanto custo tentávamos esquecer.

Chocou-me a hipocrisia da missa. Achei um ritual absurdo e desnecessário que em nada tinha de honrar o morto, mas tudo de louvar cristo e o papa e o bispo e sei lá mais o quê. Achei uma enorme falta de respeito perante a minha avó que tivéssemos ficado todos quase 5 minutos a ver o padre a comer o "pão" e beber o "vinho". Apeteceu levantar e discutir. Mas o que raio é que isto tem a ver com a minha avó? O que é que um gordo vestido de roxo a comer bolachas vai servir para dar paz à sua alma?
Achei um enorme absurdo que, para uma religião que visa não idolatrar figuras, Deus tenha sido muito menos mencionado que todos os outros retratados naquela cerimónia.

Fiquei surpreendido em ver que a minha irmã sabia de cor todas as rezas, todas as intervenções do "público".

Fui um dos portadores do caixão, como faria sentido ser... Dos presentes, o neto mais velho, filho do filho mais velho, fiz o meu papel quase com orgulho, ao lado do meu pai.

No fim de tudo senti-me vazio, esgotado. Queria dar um fim aquele episódio doloroso.

Segui do cemitério para casa, não me lembro da viagem.

In-profissional

Não é comunista, é trabalhador! Sério!Tenho dificuldades em saber qual é a minha categoria, no sítio onde trabalho.

Não posso dizer que seja um funcionário, porque não desempenho só uma função.
Talvez multi-funcionário, mas nem isso, porque nada do que faço é feito por mim do início ao fim, ou seja, nunca desempenho completamente uma função.

Também não posso dizer que seja um empregado, isto não é função pública, não é um emprego no verdadeiro sentido da palavra (leia-se, tacho).

Não afirmo que sou um trabalhador, porque não sou um agricultor, ou um mineiro, nem um construtor, nem um lenhador, enfim nenhum daqueles indivíduos que realmente trabalham.

Não me posso considerar um profissional, porque não tenho estudo nem formação para esta área, sendo que nunca tenho garantia de que aquilo que fui aprendendo ao longo dos anos está realmente correcto.

Não me posso julgar um colaborador, porque sou pago para fazer o que faço e que por muito que adore ou despreze determinadas tarefas que desempenho, tenho que as fazer na mesma.

Embora muitas vezes me sinta assim, não sou um escravo. Por muitos problemas futuros que isso me possa ou não causar, sou livre de sair por aquela porta e não mais regressar.

Em suma, sou um triste... vou praqui andando, ao sabor da maré, fazendo o que devo e tentando não fazer o que não devo... Às vezes consigo, outras vezes não, e enfim, como sempre ouvi dizer, não venha a pior!

Por isso sai.... sai da minha relva!

Não, não quero aparar!Alguém que me explique a que idade é que temos automaticamente todos os direitos possíveis e imaginários.

A que idade é que passamos a ser mais importantes que os outros?
A que idade é que não temos que responder pelas nossas acções?
A que idade é que já não é preciso saber conduzir para pegar num carro?
A que idade é que a propriedade pública, sejam parques ou jardins ou o caraças, passa a ser privado?
A que idade é que ganhamos o direito de reclamar de tudo o que conseguirmos imaginar a todos os que conseguirmos agarrar?
A que idade é que passamos a gastar mais em comprimidos do que em comida?
A que idade é que podemos exigir respeito de tudo e todos só por ainda estarmos vivos?

É que pela maneira que alguns idosos deste país se comportam, até parece que isto é uma meta definida...

Ilhas estrangeiras

Uma das coisas que mais me irrita nos turistas, e infelizmente acho que sempre me vai irritar, são aqueles totós que vem para as ilhas de passaporte.

Quer dizer, apanhamos estrangeiros europeus munidos de BI, alemães, holandeses e italianos entre outros, mas os tugas não conseguem perceber que não estão a ir para o estrangeiro!

Eu na escola primária fui obrigado a aprender todos as linhas de caminho-de-ferro de portugal e nunca sequer vi um comboio, mas os cubanos nem sequer sabem que os Açores pertencem a Portugal!

Eu até percebo as pessoas que perguntam onde é que se apanha um táxi pra S Jorge, que isto de insularidade é um conceito um pouco complicado de engolir.

Faz algum tempo, talvez uns 6 anos, uma velhota por telefone perguntou-me se a maioria dos habitantes nos Açores eram brancos ou se "ainda são de pele preta". Até isto eu consigo compreender, porque para as pessoas que viveram no tempo do ultra-mar, tudo o que não era continente era preto...

Mas porra... vivemos numa época de desenvolvimento tecnológico, em qualquer biblioteca há acesso à internet!
Para além do mais, a taxa de "emigração" açoreana é grande, uma enorme percentagem dos turistas que vejo conhecem pelo menos um açoreano lá na terra deles.

É assim tão difícil de entalar no juízo que Açores também é território Português?!?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Idade de Decência

Binho Berde, binho berde...São 4 da manhã.

Um grupo de crianças, a rondar os 13 anos, vão a descer a rampa para a silveira.

Um deles está munido de uma bebedeira tal que se lembra de ir mijar contra o portão de entrada do hotel.

Espreitei por cima do burro e berrei lá pra baixo. Nem pestanejou.
Nem medo, nem respeito, nem merda nenhuma.

Foi preciso ameaçar chamar a polícia para o impedir de regar o portão.


Não percebo estas crianças.
A minha primeira bebedeira foi com 2 cervejas, tinha quase 15 anos. Já nessa altura levei um raspanete tamanho que levou mais uns anos até me voltar a desgraçar.

Não me esqueço do olhar do meu pai. O desânimo contido naquele olhar, um misto de desespero e desilusão, com um muito escondido mas presente desprezo pelo que eu me tornara naquele momento.


Onde é que andam os pais destas crianças?
Os guardiões da inocência que se perde nas ruas desta cidade em festa?
Os responsáveis por formar e educar os líderes de amanhã?
Em que é que pensam quando vão para a cama, com os filhos fora de casa?
Será que sequer se lembram que são pais, que têm responsabilidades?


A cada dia que passa a vida me dá mais razões para amar incondicionalmente os meus pais.
Com todos os seus defeitos, com todas as suas coisas menos boas, mesmo assim conseguem ser infinitamente melhores que os outros, os que foram responsáveis por educar estas crianças que me regam o portão às 4 da manhã.