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Divagações, Diatribes e outros Semelhantes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Crise

Roubado da Wikipedia
O português gosta de falar.
Não gosta de ouvir, não gosta de trabalhar e não gosta de tomar decisões... mas gosta de falar.
E mais que isso, adora queixar-se.

A culpa é do governo, dos advogados, dos políticos, da burocracia, dos ricos, dos pobres, dos políticos, da classe média, dos médicos, dos políticos, dos tribunais, do Carlos Cruz, da função pública, dos políticos, da polícia, dos hospitais, dos políticos e, para o caso de me ter esquecido, dos políticos.

Mas minha gente... a culpa do país estar da maneira que está? É do povo.

É vossa, nossa, minha e tua. Tal como o país é de todos nós, a culpa é de todos nós.

Ora veja-se a bela decisão do povo português:

27 de Setembro de 2009.

Já tinha rebentado o caso da Independente, o famoso curso comprado ao Domingo, bem como toda a tentativa de encobrimento do mesmo.
Já tinha rebentado o escândalo dos Magalhães.
Já tinha rebentado o caso Freeport, em que o tio do primeiro ministro disse à imprensa que tinha "oferecido" o contrato dos ingleses ao sobrinho.
Já tinha começado a caça à TVI.
Já havia barulho sobre os voos de Guantanamo...
Vale a pena continuar?
Já havia mais que provas suficientes que a pessoa à frente do Governo era um aldrabão, talvez incompetente, que punha os seus interesses à frente dos do país.

E o país o que é que faz?
Elege a criatura para novo mandato!

A culpa não é do Sócrates.
A culpa é dos dois milhões de pessoas que votaram nele e, mais ainda, dos quatro milhões que não levantaram o cú do sofá, efectivamente dizendo "enganem-me à vontade e façam o que vos apetecer, que eu cá estou-me cagando"

E onde é que estão esses quatro milhões agora?

Nos cafés, nas ruas, no sofá... a queixar-se dos políticos e do governo e dos médicos e dos políticos e... da troika também, e da Alemanha e da Grécia e da Irlanda e sei lá mais o quê.

Antigamente dizia-se que a televisão era futebol e fado. Agora acabou-se o fado e é só futebol.
Antigamente queria-se putas e vinho de cheiro. Agora as putas são importadas do Brasil e o vinho de cheiro já não pode ser por causa dos taninos.

O povo português quer é pão e circo.

Ou brasileiras e futebol.

domingo, 16 de outubro de 2011

O Acordo Tortográfico

Não sei se a citação está correcta ou não, mas foi assim que chegou a mim:

Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Princípe, de Angola, do Brasil, e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronuciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristovão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.

A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões.” Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos em África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhmoguenses, umbandinos e macuas, Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e
excitante língua, que passará a chamar-se o brutoguês.

Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brotuguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto.

As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia”. Dantes cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.

As ortografias tupis e crioulas, macumbenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por linhas tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «Cuf-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia» para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» assim, nua e crua.

Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos portugueses, caso o acordo seja aprovado:”A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?”

Os portugueses no fundo assinaram um Pacto ortográfico que sabe a pato. Ninguém imagina os espanhóis, os Franceses, ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – Seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima de misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.

A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça. Como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem da estupidez que pretender que todos os que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. é ridículo, é anticultural, é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.

>Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros já existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada a atenção, dirá «tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem as cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»

“A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrespeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito que achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos, e não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.

Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tijela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses armados em donos da língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote do lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé) e de inadmissível sobranceria cultural («tudo vale, mas nós é que temos o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe»).

Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste momento, muitos portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater a inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização”.

Miguel Esteves Cardoso, “O Acordo Tortográfico”, in “Explicações de Português” (Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Papier-Mâché

Água vai!Aparentemente vai-se discutir no Outono Vivo o futuro do livro.

Acho piada que a classe social que está a destruir o Livro seja a mesma que se vai juntar para discutir qual vai ser o futuro do mesmo.

O livro vai seguir o caminho do vinil. Vai ser só para aficionados, aqueles que juram que o som é diferente, que o cheiro faz um efeito qualquer e que a terra é plana e o sol gira à volta da lua e outras coisas assim.

O que é que interessa? O dinheiro.

Pura e simplesmente, o dinheiro.

Para o editor, para a empresa que lança o livro, é mais barato lançar em formato electrónico. É mais rápido, mais cómodo, mais limpo até.
Para quê gastar fortunas em transporte quando se pode mandar o livro por email?
Para quê abater árvores aos milhares para produzir livros aos milhões quando um iPod leva mais informação que uma biblioteca inteira?
Para quê armazéns, espaços comerciais, bibliotecas até, quando tudo está na ponta dos nossos dedos?
Para quê gastar fortunas em impressoras, tipografias, tintas, químicos que só fazem mal ao meio-ambiente e entulham os caixotes do lixo?
Aparentemente a produção de um e-reader gasta 3 vezes menos materia prima e 78 vezes menos água, só pra rematar.

Para o escritor é igual ao litro, ele recebe o seu na mesma e o resto que se lixe.
Os autores não deixam de escrever só porque as coisas não se imprimem e já pra mais de 15 anos que todos usam computadores pra preparar o seu trabalho.

E a electronificação do livro só é boa pros autores. Um livro publicado em formato electrónico tem um custo muito mais baixo, o que se traduz num custo de venda menor, o que posteriormente se traduz em mais venda... se eu for dar 15 euros por um livro ou 15 euros por dois, é claro que compro os dois. E também pode significar um lucro maior pro autor, considerando que o bolo total não tem que ser dividido em tantas fatias acaba a dar fatias maiores.

A Palavra Escrita, essa está bem viva. A venda dos Kindles anda a subir em flecha, o Google tem uma secção inteira dedicada a livros electrónicos em constante crescimento, os grandes jornais já todos têm edição electrónica e ,quem diria, blogs é o que não falta.

As pessoas continuam a escrever, continuam a ler, continuam a comunicar.

Eles não querem saber do futuro do Livro... eles querem saber é do monte de filhos da puta que fazem fortunas à custa da criatividade dos outros!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

De volta à televisão

PlonkEu não sigo a política nacional. Não sigo os sensacionalismos, os tablóides, as casas dos segredos nem os big brothers, não sigo a política internacional, nem as guerras do mundo nem todas essas trapalhadas que enchem as páginas dos jornais. A maioria das vezes nem vejo telejornal.

Num dia a dia de contar cêntimos pra pagar as contas e por comida na mesa torna-se difícil sequer fingir que me preocupo com o que acontece aos outros quando os conheço, quanto mais o que acontece do outro lado do mundo a um plantador de arroz qualquer no Vietname.

Como tal, não estou nada a par do processo Casa Pia. Não sei quem são, quantos foram, o que é que se passou, o que é que se provou que não se passou e tudo mais que talvez fizesse sentido a este post. Quando penso em Casa Pia só me lembro de Bibi, Carlos Cruz, Herman José e uma entrevista a um rapazinho que dizia "se algum adulto vos puser a mão no pénis, não tenham medo de falar que não vão ser castigados."

De acordo com a Pública deste fim de semana, Carlos Cruz vai voltar à televisão.
E tenho que admitir que não me estranha nada.

O tempo apaga tudo, cura todas as feridas e limpa todas as memórias. O mesmo instinto que nos faz não falar mal dos mortos faz-nos esquecer as injustiças de ontem, as atrocidades do passado e concentrar nas parvoíces do presente.

Enquanto que há 9 anos atrás a praça pública estava certa da sua culpa e queriam esquartejá-lo e arrastá-lo pela rua, hoje se calhar já não é bem assim e talvez não tenha sido e porque há a hipótese de que afins e coisa e tal.

Demorou quase uma década, mas para Carlos Cruz a vida está a voltar à raiz, à sua televisão, à sua profissão.

É bizarro.

Não consigo perceber como é que as pessoas se esquecem daquilo que ontem tinham tanta certeza. Como é que as sentenças de morte de outrem são palmadinhas nas costas de agora. Como é que os demónios-em-pele-humana se tornam numa cara que nos invade a casa pelo ecrã.

E daqui a dez anos, talvez até menos, já ninguém se lembra do processo, já ninguém se lembra da pedofilia e Carlos Cruz passa a ser só mais um dos figurinos sentado a uma mesa em frente às câmaras.

E tudo volta a ser como era antes.

sábado, 8 de outubro de 2011

Eu

Gosto como Álvaro Monjardino se apresenta hoje, "o autor destas linhas."

É daquelas coisas que depois de se ver desperta um "mas como é que não me lembrei disto antes?"

Vê-se por aí muita apresentação diferente, sendo a maioria auto-depreciativa como é caso "o vosso humilde servo" ou "este simples escriba" ou outras lérias do género, como que a convidar uma resposta de "deixa lá que até és importante" e até ficam chateados quando não recebem dita resposta.

Quando se refere outros é quase sempre um elogio exagerado, quase sardónico, "o poeta," "o bardo," " o grande," "o ilustríssimo," "o venerável," "Sr. Dr. Eng. Arq. Zé Povinho," e outras demais lambidelas ao rego, um medo de possíveis e imaginárias represálias por meia dúzia de palavras, a maioria das vezes até absurdas.

Mas assim não é com Álvaro Monjardino (pelo menos hoje). "O autor destas linhas" não é pretensioso, humilde, exagerado, não é uma chamada de atenção nem uma fuga à ribalta.

É apenas o que é e nada mais.

O que me parece perfeitamente adequado.